"A autoridade se revela simultaneamente como um dos problesmas mais antigos com os quais os homens se confrontam e como uma das questões mais agudas da atualidade. Problema antigo, de fato, o da revolta do filho contra o pai, da insubordinação dos alunos que não querem aprender, da inquietude das sociedades acerca das novas gerações, que devem ser domesticadas e, ao mesmo tempo emancipadas.
O imenso mérito de Gérard Guillot é nos oferecer, de maneira acessível e concreta, uma alternativa educativa original chamada 'autoridade de bons tratos'. Ele fornece uma referência para pensar e agir mais acertadamente e permitir o desenvolvimento harmonioso da pessoa. Longe dos encantamentos passadistas e dos devaneios libertários, ele propõe ações concretas que auxiliarão o educador a enfrentar as questões mais cotidianas, sem ficar preso no imediato.
Philippe Meirieu
Livro de Gérard Guillot
Professor de Filosofia, Universidade de Lyon, França.
O resgate da autoridade em educação.
A crise da autoridade manifesta-se nas famílias, nas escolas, na desconfiança em relação aos poderes, particularmente o poder político.
Muitos professores, iniciantes ou mais experientes, enfrentam hoje problemas de autoridade com os jovens.
A violência de forma espetacular ou oculta, não só se apresenta de forma banalizada como se radicalizou na humanidade.
A educação como estrutura das atitudes diante da vida e do outro, também deve afirmar o respeito ao ser humano pela palavra e pelos atos. É uma questão de princípios.
Agir cedo, desde o início, não é somente precaução e prevençao, é uma obrigação ética, política e educativa, que não depende de algumas boas-vontades aqui e ali, mas de uma parceria entre professores, famílias e poder público.
É frequentemente esgotante conduzir determinadas turmas para alguns professores. O que fazer diante de alunos sem motivação? Alguns colegas professores, mesmo com a preparação pedagógica, com conhecimento de aprendizagens específicas, não conseguem mudar e instaurar a implantação da disciplina. Recorrem a práticas como reprimendas incessantes, gritos, desconto de pontos sob uma forma de punição, convocação aos pais, e outras maneiras.
A vontade que esses professores têm de ensinar e, portanto, de fazer com que seus alunos aprendam choca-se com recusas, inércia, condutas perturbadoras, provocações, e às vezes, insultos ou ameças e até mesmo violência.
O papel do professor e as representações coletivas evoluíram consideravelmente desde o início do século XX. Os debates são sempre vigorosos nesse sentido.
O professor é, por seu estatuto, um servidor da República.
A escola é oficialmente uma instituição que tem uma missão de serviço público.
Devido as últimas reformas, a noção de serviço público derivou para a de serviço do público e, desde então, dos públicos.
São as exigências econômicas, profissionais, as expectativas sociais que influenciam as políticas educativas. Os pais de alunos, "usuários" do serviço público, tendem a ser transformados ou a de se transformarem em "clientes" de um serviço privado e personalizado.
O pensamento permite julgar o impensável que a inteligência pode produzir. É por isso que a pedagogia é filha legítima da filosofia. A inteligência serve-se de valores: a questão fundamental, saber quais são eles. A preocupação ética tange ao exercício do pensamento, assim como Arendt desenvolveu, seguindo Kant e também Weber.
Weber distinguiu radicalmente uma "ética de convicção" de uma "ética de responsabilidade" e apelou para a vigilância dos políticos e dos professores, levantando a hipótese de que "é justo o problema da justificativa dos meios pelos fins que, em geral, destina ao fracasso a ética de convicção". Ele critica a demagogia moderna que recorre à publicidade e a mídia e que pede aos professores que se transformem em pequenos profetas de anfiteatro, encarregados de anunciar a vinda de um salvador (cientista ou religioso):"Assim vocês só conseguirão fazer uma coisa, impedir a nova geração de se dar conta deste fato decisivo: o profeta que tantos membros da nova geração clamam insistentemente, não existe" e "devemos responder pelas consequências previsíveis de nossos atos" sem nos contentar em fazer nosso "dever" para com um Deus ou uma ideologia erigida como absoluta.
A análise de Weber tem o mérito de levantar problemas, mas se limita a legitimações de autoridades existentes sem uma proposta de mudança.
Se autoridade é mediação, a mediação do direito é essencial, ela se refere a valores, a começar pelo respeito à humanidade de cada um. Um respeito que não é mera polidez do espírito, retomando uma expressão de Bachelard, mas que deve estar presente em cada fala, em cada olhar, em cada gesto. Era por isso que Kant considerava que o direito e a educação são as duas condições constitutivas de uma humanidade pacificada e de uma cidadania do mundo. O direito legisla os comportamentos observáveis, a educação não assume todo seu alcance a não ser que os saberes que ela transmite sejam esclarecidos por uma ética universalista. Para Guillot essa ética é paradoxal, pois "como cultivar a liberdade pela coerção? É necessário que eu habitue meu aluno a suportar que sua liberdade seja submetida a uma coerção e que, ao mesmo tempo, eu o instrua a fazer bom uso de sua liberdade. Sem isso, ele seria puro mecanismo. O homem privado de educação não sabe se servir de sua liberdade".
Segundo Guillot, para educar, ensinar, não se pode mais fazer como se os atrativos do presente não tivessem interesse, mas devem ser utilizados como recursos pedagógicos articulados entre a relação do saber e a relação de tempo dos alunos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário